Os olhares que ficam
Há encontros que o tempo não sabe levar. Meses passam, rotinas mudam, a vida ajeita-se noutros lugares, e ainda assim, há memórias que ficam guardadas num canto silencioso, onde ninguém mexe, mas onde tudo permanece vivo. E então, um dia qualquer, quase por acaso, dois olhares cruzam-se outra vez. Não é como antes. Não podia ser. As pessoas crescem, os gestos mudam, as palavras já não caem nos mesmos lugares. Mas há um reconhecimento subtil, quase imperceptível, como quem reencontra uma música antiga tocada com novos instrumentos. Não é saudade, nem desejo, nem retorno. É apenas aquela estranha sensação de perceber que algumas histórias não se apagam, apenas mudam de tom. E que há presenças que continuam a existir, mesmo quando já não ocupam espaço nenhum. O tempo passa, sim. Mas certos olhares… esses atravessam-no sem pressa. E quando se reencontram, mesmo que tudo esteja diferente, carregam sempre um eco de quem fomos e de tudo o que nunca dissemos em voz alta.